Porque não ser vice

Publicado: 10/03/2010 em Política Nacional
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Fonte: * Cláudio Gonçalves Couto – Valor Econômico

Muito se tem noticiado e comentado na imprensa acerca da possibilidade de Aécio Neves apresentar-se como candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por José Serra. O governador mineiro, contudo, tem dado reiteradas declarações de que não pretende assumir tal posto, preferindo focar-se na disputa estadual por sua própria sucessão e em sua candidatura ao Senado Federal. De fato, Aécio tem razões de sobra para fazer esta opção e nenhum motivo para integrar a assim chamada “chapa puro-sangue” do PSDB à Presidência da República.

A primeira e menos importante dessas razões diz respeito ao passado. A direção do PSDB não tem muitas condições morais e políticas para exigir sacrifícios de Aécio Neves – e, no atual cenário, uma candidatura a vice-presidente na chapa de oposição certamente seria um sacrifício para quem tem coisa melhor a conquistar. Ao longo de meses, durante o ano passado, o governador mineiro instou seu partido a promover discussões internas sobre a candidatura presidencial tucana e, se necessário fosse, uma prévia. Seus clamores foram solenemente ignorados, pois a direção do partido optou por jogar a disputa interna em favor do outro pré-candidato à época, o hoje exclusivíssimo José Serra. Para este, que contava com maior notoriedade país afora e, ainda, com o recall das últimas eleições que disputara (nos planos nacional, municipal e estadual, respectivamente), nada poderia ter sido mais proveitoso do que cozinhar a disputa doméstica em banho-maria até que seu adversário (menos conhecido fora de Minas Gerais) se visse sem tempo hábil para viabilizar-se nacionalmente. Foi o que aconteceu, e Aécio desistiu da pré-candidatura presidencial no final de 2009.

A segunda razão para Aécio não ser vice diz respeito ao futuro: ele tem muito mais a ganhar politicamente caso se concentre na disputa mineira – para fazer o sucessor, Antonio Anastasia, e para eleger-se senador. Os ganhos decorrentes dessas duas eventuais vitórias (a segunda, praticamente líquida e certa) não se restringiriam, contudo, apenas ao front mineiro. Fazendo o sucessor, Aécio Neves asseguraria para seu grupo o controle sobre o segundo mais populoso Estado brasileiro pelos próximos quatro anos; assim, garantiria localmente para si uma plataforma de sustentação política considerável para atuar no plano nacional pelo próximo período. Tal atuação nacional tornar-se-á ainda mais efetiva caso Aécio esteja no Senado – palco das grandes disputas políticas da federação. No Senado, não seria um parlamentar comum, mas contaria naturalmente com os holofotes da mídia por se tratar de um potencial candidato competitivo à Presidência da República no curto prazo. Ademais, qualquer que seja o próximo presidente, Aécio Neves terá condições de atuar como protagonista no Congresso Nacional.
Caso a eleita seja Dilma Rousseff, o atual governador mineiro tenderia a despontar como principal liderança oposicionista no parlamento. Confirmando-se na prática a percepção de Dilma como uma presidenta pouco carismática, ainda mais espaço sobraria para políticos de perfil mais arrojado e boa capacidade de comunicação – como é o caso de Aécio Neves. Nisto, seria marcante o contraste com a situação atual, em que o carisma do presidente ofusca não apenas seus auxiliares, mas, sobretudo, os que lhe apupam. Ao fim deste período, seria o candidato natural das oposições e – a depender do desempenho do futuro governo – poderia até mesmo contar com certo favoritismo.
Caso o eleito seja José Serra, o cenário mais provável seria Aécio despontando como principal liderança situacionista no Congresso – a despeito de uma inescapável rivalidade interna com o eventual futuro presidente tucano. Tal disputa interna não seria suficiente para Serra deslocar Aécio, sobretudo se este conseguisse postar-se como um representante “do Congresso” perante o Executivo – para o quê seria um trunfo sua maior facilidade de diálogo com setores que são adversários do PSDB e do DEM. No caso de alguma grande surpresa eleitoral, como as hoje improváveis vitórias de Marina Silva ou Ciro Gomes, o atual governador mineiro tenderia a despontar como um potencial e indispensável articulador político. Ou seja, em todos os cenários prospectivos, as estratégias mais alentadoras para seu futuro requerem de Aécio Neves que vá para o Senado, onde poderá atuar com independência e visibilidade; como vice-presidente, ficaria na dependência do presidente outorgar-lhe alguma tarefa capaz de manter-lhe no centro do palco.
A terceira razão para não aceitar a Vice-Presidência na chapa de oposição é que, quanto mais o tempo passa, mais fica claro que a candidatura tucana terá seríssimas dificuldades na disputa. Se as atuais tendências apontadas pelas pesquisas de intenção de voto se mantiverem, em poucas semanas Dilma Rousseff ultrapassará José Serra, e será difícil reverter este quadro futuramente em decorrência da grande popularidade do governo e de Lula. Apenas o fator pessoal da suposta fragilidade da candidata situacionista poderá servir de arma eficaz à oposição para virar um jogo que cada vez menos lhe é favorável. Sucintamente, continuando as coisas a transcorrer da mesma forma, Dilma perde apenas para si mesma. Em tal situação, Aécio Neves como vice na chapa de oposição apenas teria a perder: ocuparia um lugar secundário nas eleições de outubro, não seria eleito, deixaria de investir onde possui chances tremendamente maiores de retorno eleitoral (Minas Gerais) e abriria mão de uma posição institucional crucial para a atuação política no próximo período – o Congresso Nacional. A propósito, é bom lembrar que Aécio projetou-se como liderança nacional a partir de sua atuação na presidência da Câmara dos Deputados.
Somente uma eventual desistência de José Serra tornaria interessante para Aécio Neves não disputar o Senado. Neste caso, mesmo saindo muito tardiamente para a disputa e, consequentemente, tendo chances reduzidas de vitória, teria a campanha presidencial como instrumento para tornar-se conhecido país afora e pavimentar o caminho para uma nova tentativa em 2014. Ademais, numa tal situação, seria o partido que ficaria em dívida com ele – após tê-lo cozinhado em fogo brando, precisaria implorar por seu socorro.
* Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP. O titular da coluna, Raymundo Costa, está em férias
E-mail: claudio.couto@fgv.br

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