Ahmadinejad no Brasil: A perigosa ideologização do MRE

Publicado: 24/11/2009 em Política Internacional
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Enfim o Presidente do Irã chegou ao Brasil. Depois de algumas tentativas, Mahmoud Ahmadinejad veio ao nosso país com o intuito público de aumentar as relações comerciais com o Brasil, que hoje não passam dos US$ 2 bilhões. Trouxe consigo um bom grupo de empresários iranianos, dispostos a fechar negócios com o Brasil. A meta iraniana é chegar aos US$ 10 bilhões. Fosse apenas por isso, esta seria uma visita comum, como tantas outras que nosso Presidente recebe. Mas Ahmadinejad não é um visitante comum. Aliás, ele está longe disso. É a figura pública legalmente constituída mais contestada do cenário internacional na nossa atualidade.

O Irã tem uma história de grandes radicalismos e grandes conquistas. Somente em 1935 passou a ter o atual nome. Até essa data era conhecido como Pérsia. Terra de Dario III, do Xá Reza Pahlavi e do Aiatolá Khomeini, O Irã foi sempre um território muito rico em cultura, conhecido no mundo antigo pelas incríveis tapeçarias e como rota de comércio entre os reinos europeus e as Índias. Foi naquela localidade que floresceram os Medos, considerados como a primeira civilização eminentemente ariana do mundo. Mas esse mesmo país é o lugar de radicalismos, onde é comum ver a intolerância sobre diversos aspectos, devidamente instigada pelos governantes locais, que usam principalmente a religião para manter os governados sob seu poder.

Mas Ahmadinejad não é diferente de alguns líderes ocidentais, como Hugo Chávez, por exemplo. Também na América Latina, uma ideologia é capaz de cegar populações inteiras. A partir do domínio dessa massa, se é capaz de cometer as maiores atrocidades contra os direitos humanos, sem que isso represente perigo ao líder de plantão. Assim o é na Venezuela, no Equador, na Bolívia, na China, na Coréia do Norte, e, em menor grau, na Argentina e no Brasil também, pois um governo que implanta um programa de transferência de renda (e isso não existe só no nosso país) sem exigir do beneficiário uma contrapartida, está alienando uma parcela considerável da população.

E no Irã, a coisa não é diferente. O Presidente daquele país venceu duas eleições consideradas fraudulentas, oprime a imprensa local, restringe a liberdade de expressão e, em alguns casos, até mesmo o direito de ir e vir. Também o governo do Irã cerceia as minorias e os opositores, o que dá um ar de estabilidade ao Presidente iraniano, que fica abaixo apenas dos Aiatolás, comandantes supremos da política e da religião, que se misturam naquele país, gerando um verdadeiro barril de pólvora, e fazendo com que algo que teria uma solução pacífica se tornar um indomável cavalo de batalha.

Não obstante isso, Ahmadinejad desafia o sistema internacional, usando a perigosa tática do confrontamento ao invés do diálogo. Claro, é uma maneira de ser visto e ouvido pelos líderes mundiais, mas é certo também que gerar conflito é um perigoso caminho, pois pode levar a uma guerra desnecessária e plenamente evitável. Chamar a atenção da forma que o Brasil vem fazendo, com diálogo e ampliação do espaço político no cenário internacional é um caminho bem mais demorado, mas que gera resultados estáveis e duradouros.

As viagens do Presidente Ahmadinejad não passam de bravatas e provocação. Se elas trazem algum benefício comercial, este fica camuflado pelas criticas ao político controverso que lidera aquele país. Receber o Presidente do Irã é um ônus político maior que os bônus financeiros que certamente ele conseguiu aqui, pois, ao circular entre os lideres mundiais, Ahmadinejad passa a falsa impressão de que tem algum tipo de influência internacional, quando, na verdade, sua figura representa tudo o que o ser humano não deve fazer dentro de uma sociedade constituída.

Hoje, abrir uma porta para o Irã pode representar, talvez, o fechamento de algumas outras boas portas ao comércio brasileiro. E esse reflexo não será sentido imediatamente, mas existirá. É um constrangimento. Mais um, que faz da era Lula da Silva um momento de contrastes em política internacional, pois, ao mesmo tempo em que consolida o Brasil como um Global Player, faz uma perigosa ideologização das Relações Exteriores, nunca vista na historiografia do nosso país, e que darão muito trabalho ao próximo presidente brasileiro.

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comentários
  1. Flavia M.Cruz disse:

    Perdoe-me: qual a “ideologização” em receber, em menos de 30 dias, o Primeiro Ministro de Israel E o Presidente do Irã? Pelo seu raciocínio, então a visita do Primeiro Ministro de Israel também coloca em risco a parceria comercial do Brasil com países mulçumanos?? Sério mesmo?

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